Ele é meu bule, e deve ter um caso com a minha leiteira.
Sempre pensei que as grandes iluminações só fossem possíveis no meio do deserto, à beira da morte ou no alto de uma montanha. Que nada! Hoje tive uma revelação durante meu café da manhã. Meu olhar escapou do pão com manteiga, escorregou pelo chão da cozinha e, sem nenhuma razão aparente, foi parar no bule sobre o fogão. Ali eu compreendi: todos os objetos tem uma personalidade, igualzinho a gente.
O bule, por exemplo: depois de algum tempo o observando, tive a percepção de que seu nome era Roberto, usava ternos escuros, meias de lã fininhas furadas no calcanhar e talco nas axilas. (O bule se fosse gente e se chamasse doutor Roberto, chamaria os sovacos assim: axilas.) Talvez, em seus longos períodos no armário, tenha um caso com a leiteira, uma moça generosa e simples. Fátima, talvez.
Já as tesouras de unha são arrogantes e mesquinhas, se acham objetos chiques e desprezam os cortadores de unhas. Os cortadores, por sua vez, são gente fina. Meio burros, é verdade. Mas gente fina. Desses caras de quem agente nunca vais ser amigo, mas também não tem nenhuma queixa. (Num trabalho em grupo, por exemplo, é bem melhor cair com um cortador do que com uma tesourinha.)
Nenhum objeto, no entanto, é mais burro do que os clipes. Só andam em bando, conversam sempre com os da mesma espécie e acabam bitolados. Só sabem fazer uma coisa, e se você lhes da muito esforço, ficam todos tortos.
As poltronas, obviamente, são mal-humoradas. Preguiçosas, gordas, não gostam de luz, sofrem de renite, e se acham muito intelectuais e profundas, ao contrario dos sofás, que, segundo elas, são muito comerciais, muito pops, sempre querendo agradar a todos. Eu, entre as poltronas e os sofás, fico com os dois. Cada um tem seu momento.
Acho que os parafusos e os pregos tem uma competição parecida. Os parafusos se acham superiores, pois prendem melhor e para sempre, embora os pregos sejam mais malandros, entram em qualquer lugar sozinhos, sem precisar de furadeira.
Malandros mesmos são os isqueiros e as canetas Bic. Vivem de biscates, um dia no bolso de um, o outro no bolso de outro e assim por diante, rodando o mundo. Viajantes, desempregados, sabem que a vida é breve, é tinta, é gás, pra que se prender a uma coisa só, a um lugar apenas? São felizes esses objetos.
O mesmo já não se pode dizer sobre os pires. Sofrem de um terrível complexo de auto-estima. Sentem-se rebaixados, sempre sustentando as xícaras, em segundo plano. E quando usados como pratinho de sobremesa, sentem-se ridículos, e ameaçados pelos olhares enciumados dos pratos maiores,
Se eu pudesse fazer alguma coisa pelos pires, eu faria, mas a fumaça saindo do nariz do doutor Roberto me avisa que o tempo passou, estou atrasadíssima, ainda nem acabei meu café e já perdi a primeira aula...
Nenhum comentário:
Postar um comentário